terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Eterno Retorno

Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Álvaro de Campos
Yeaahh!!

Três horas da manhã, na companhia do silêncio e da solidão que tem se tornado um vício, foi quando me deparei com uma mente aflita, que em seus devaneios chegou à célebre e estúpida conclusão que o riso é tolice e que a alegria de nada serve.  O rico e sábio Salomão falou-me sobre os movimentos da vida, as estéreis rotinas do tempo, enfadonhas ensimesmadas repetições.

O sol se levanta, o sol se deita, apresando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta. O vento sopra em direção ao sul, gira para o norte, e girando e girando vai o vento em suas voltas. Todos os rios correm para o mar e, contudo, o mar nunca se enche: embora chegando ao fim do seu percurso os rios continuam a correr. Todas as palavras são gastas e ninguém pode mais falar. O olho não se sacia de ver nem o ouvido se farta de ouvir. O que foi será, o que se fez se tornará a fazer: Nada há de novo debaixo do sol! (1)

Quase 4 horas, o amigo de um amigo meu, Frederico Nit, ouviu a angústia do coração do sábio Rei, subiu uma alta montanha e de lá lançou ao vento duras palavras que alcançaram as mentes e os corações como um pesado martelo destruidor de ídolos.

Nit inquire

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez... (2)

E se??

Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! (2)

Pobre sábio amigo, conheceu tudo mas nada entendeu. Pobre rico amigo teve tudo mas nada era seu.
Minhas amigas invejam Salomão, querem riqueza e poder, pobre amigas, “nada há de novo debaixo do Sol”.
Cada escolha, escolhas eternas, cada momento vivido, momentos que retornarão eternamente, nada novo, só o eterno retorno.

Seis horas da manhã, o velho e cansado amigo percorre sua vida sua história e nada encontra: “Fiz obras magníficas, construí palácios para mim, fiz jardins e parques, Acumulei prata e ouro, escolhi cantores, inúmeras mulheres, nada que fiz me agradou, viver a vida é como correr atrás do vento.” (3)


A vida? Ela re-começa todos os dias... Vivê-la é muito perigoso... A cada e a todo momento, escolhas que se eternizarão... 
Eiiii!! O que vc fará hoje? Vamos escrever uma poesia juntos? Quero dançar! Vem?

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1 - Eclesiastes 1.4-9

2 - Nietzsche, Friedrich. A Gaia Ciencia, Aforismo 341
3 - Eclesastes 2. 4-8


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Sobre Deus, jardins e borboletas...

No princípio era um jardim, lá moravam a alegria, lindas borboletas e ela. Todas as tardes Deus descia do céu e passeava com ela, sua amada. Segurando em suas macias e frágeis mãos, mostrava-lhes as flores que havia plantado, cada uma um aroma especial, plantadas bem pertinho de um ribeiro de águas mansas e perenes, onde haviam passarinhos que entoavam canções de amor.

Um dia ela não quis mais passear com ele, queria espaço, queria pensar, ficar só. Os dias se passaram , a alegria se foi. Todas as tardes Deus esperava por sua amada, mas ela não voltava, então decidiu não mais ir àquele lugar que havia se tornado morada da solidão e da dor. No entanto para preservar o jardim, no qual viveu os momentos mais sublimes construiu um muro. "A tristeza é muro que separa jardins". E colocou  dois guardas para o proteger.

Mas ele deixou um sinal, as borboletas, na esperança que sua amada as vendo lembre-se do seu amor. E lembrando-se siga os passos do jardineiro que foi enviado para plantar caminhos, anunciando que tudo que foi ensinado, aprendido, determinado pelos Deuses ou por homens deve resumir-se em amar...

O desejo de Deus é amar e ser amado. O caminho de Jesus é o amor. Aquelas que amam conhecem a Deus... Quem não ama... Quem não se permite ser amada... Veja... Há borboletas...

Cecília Meireles escreveu um poeminha que diz tudo, o essencial, nada lhe falta...


“No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.


E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,


entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.”