quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Caçador de Esperança

Estava conversando com uma amiga enfermeira, a melhor que conheço, fiquei bestificado com a forma que essa querida amiga usava sua fé para dar um belo e forte significado à sua atividade de cuidar das pessoas. Para Binha, “a fé é o firme fundamento da esperança”.
A esperança está no centro da pessoa humana, é aquilo que a move que a arremessa para a vida, a esperança de um mundo mais justo e solidário, a esperança que nossos sonhos e projetos se concretizarão.
Conversando com ela, nos lembramos de um amigo sonhador. Era um rapaz novo, cheio de sonhos e projetos, movido pela esperança. 

Sonhar é a capacidade de transformar a esperança em projetos de vida. 

Seus desejos de poder e seu coração cristão inclinado para a solidariedade o fez portador de sonhos mirabolantes. Esses sonhos o moviam. Queria ser capaz de transformar o mundo, ser parte de uma grande revolução econômica, política, social e de valores.
Logo viu-se só, devido a tamanha ingenuidade, mas traçou seu tímido caminho e seguiu. O caminho foi duro, mas cheio de aprendizados. Tentaram lhe mostrar um mundo no qual não era permitido sonhar, um mundo dado, pronto, realizado. 

Na saga bíblica, a revelação divina nos mostra como a sociedade tenta matar nossos sonhos, mas eles nunca conseguem, o máximo que os irmãos de José conseguiram foi jogá-lo em um buraco. A revelação é surpreendente, pois é exatamente isso que ocorre, a sociedade do capital não precisa de sonhadores, mas sim de peças e engrenagens que se encaixem em um de seus inúmeros sistemas: financeiros, industriais, de serviços e até religiosos. Nossos sonhos são logo jogados em buracos distantes e esquecidos da nossa alma, até pensamos que eles estão mortos, mas sonhos não morrem, estão sempre vivos, mesmo que nas profundezas da nossa alma.

Mas o efeito em nosso amigo foi outro, no caminho, conheceu a frustração de seus sonhos, mas isso não o derrubou. Prostrado olhou para o alto e iluminado teve sonhos ainda mais elevados, sonhou com coisa mais simples, no entanto tão complexo quanto o último, um grande sonho como lhe era comum. Sonhou em fazer sua amada feliz.
Sonhos impossíveis, mas que valiam lutar por eles. Utopias que nunca se realizariam, mas que o arremessava para cima. Horizontes distantes, que nunca alcançaria, mas que não o permitia parar de caminhar.
Todos os seus sonhos foram lançados em buracos, mas ele é caçador de esperança: Não permitirei que matem meus sonhos e projetos de vida. Nem serei medíocre a ponto de matá-los para viver confortavelmente o sonho dos outros, ou o inócuo projeto da sociedade do capital.
Meu amigo está a procura de sonhos mais simples, lá nos buracos da sua alma, aprendeu com os poetas a ver beleza nas coisas simples da vida.

Como disse Pessoa: Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
Desejo morrer por algo que valha a pena morrer, e viver por algo que valha a pena viver.
Nunca permita que matem seus sonhos, quando eles se forem, você estará aí, mas deixará de viver.

Sonhe, ouse, lute, caia, levante, pense, tire a poeira,caminhe, trate as feridas, siga... 

Vale a pena viver! 

“Garanto que uma flor nasceu. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto...”

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Conversa sobre Tempera, sofrimento e anjos!

Fui Torneiro Mecânico durante 10 anos da minha vida, orgulhosamente tenho a mesma profissão do presidente Lula...
Trabalhar como torneiro mecânico na área da PETROBRAS me ensinou coisas que carrego pra vida inteira. As principais foram: saber receber ordens; fazer greves; lutar pelos direitos dos outros; dar “nó”, (termo técnico para: “enrolar o chefe”); e fazer de tudo para não perder um serviço  (não há problemas sem soluções, primeiro diga que dá pra fazer, depois veja se dá mesmo. E se não der, dê um jeito, mas faça!).

Têmpera é um tipo de tratamento de metais. Com a têmpera podemos mudar suas características. O aço, por exemplo, tem em sua constituição uma quantidade x de carbono. A quantidade de carbono diz sobre a dureza e resistência do aço, quanto mais carbono, mais duro.

Como há pessoas frágeis, também há metais frágeis, os muito duros são frágeis porque se tornam muito quebradiços, e os macios são frágeis porque não tem resistência.
Quando o metal é muito macio, ele precisa ser temperado, este é submetido a altíssimas temperaturas e logo após um resfriamento brusco, com isto as moléculas de carbono tendem a ir para as extremidades do aço, tornando-o mais resistente em suas extremidades, onde ele precisa, pois é ali que vai receber o impacto.

O metal sofre para se tornar apto ao trabalho.

Em conversa com um amigo torneiro, ele me dizia que somos assim, precisamos sofrer para nos tornarmos aptos à vida. Quem não viveu momentos tristes que machucaram tanto que parecia q não iria resistir?

Ninguém deseja esses momentos, mas a verdade é que precisamos deles.

Meu amigo torneiro vem tentando aprender com os poetas, já consegue ver nas coisas tristes e nas pedras do caminho possibilidades de beleza e de alegria. Consegue ver a alma das coisas. Consegue sonhar. Entrar na realidade rompendo com a ditadura do real.

Disse-me que Deus foi muito bom com ele, pois sabendo que ele tinha que sofrer para aprender a viver, para ser resistente... mandou ela...

Ela era um ser incrível, era um anjo de Deus, quando o conheceu desobedeceu a Deus e veio viver com ele, queria viver como um humano. E foram felizes, mas logo veio o sofrimento, pq Anjos não são humanos... Anjos seguem regras, as regras os aprisionam... Por isso meu amigo torneiro sofreu, e sofreu, e sofreu...

_Mas ela era um anjo! Entendeu Gabirú? Deus foi muito bom pra mim, os momentos que vivemos foram mágicos, encantados, sublimes... Experimentei coisas que me marcaram para sempre, me senti perto de Deus. Ela se foi! Mas Deus a enviou para me tornar resistente, por isso sofri tanto.

Triste, meu amigo tomou o seu caminho, mas percebi claramente que ele era outro, mais forte e apto para enfrentar os mais árduos e penosos desafios da vida.