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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Quando o outono chegar...



Quando você tem quinze anos trabalhando numa empresa que saiu do zero, ela agora é uma grande empresa, praticamente por causa dos seus esforços e você é demitido sem nenhum motivo aparente.



Quando seu filho roubou sua televisão, para comprar a penúltima pedra de crack.



Quando sua vida se torna um inferno, por causa de uma calunia daquele que você acreditava ser seu amigo.



Quando você descobre que passou a vida toda sendo apenas carvão, queimado pelo sistema de produção e quando olha pra trás não vê vida e descobre que nunca viveu.



Quando a mulher que você ama esta acordando ao lado do homem errado.



Quando uma mãe joga o primeiro punhado de terra no caixão do próprio filho.



Quando não há mais esperança, quando só há tristeza e solidão.



Quando o outono chegar... Lembre-se! Você ainda precisa de forças para enfrentar o rijo inverno...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Bons olhos... Olhos ruins...

Estava conversando com um velho amigo que conheci numa roça no interior de Anguera, cidadezinha do sertão baiano. Sempre que converso com ele tenho a sensação que naquela hora de conversa aprendi mais que a semana inteira na Universidade.

Ele me falava há dois tipos de pessoas no mundo, as que tem bons olhos e as de olhos ruins. _Tem gente que sabe vê, tem gente que óia óia e num vê é nada, só vê a feiura das coisa.

Num outro sertão, no Grande Sertão Veredas, Riobaldo aprende a ver com Diadorim, seu amigo e amada – as pessoas que amamos tem esse poder, nos fazem enxergar ou nos cegam totalmente. Em uma bela cena descrita por Guimarães Rosa, Riobaldo atravessava um rio com Diadorim quando foi motivado pelo amigo a olhar para a beleza que estava a sua volta, foi um momento mágico, os olhos de Riobaldo se abriram para as coisas essenciais, mas tarde ele disse: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Há pessoas que não conseguem enxergar a beleza que está bem na frente de seus olhos, olhos ruins... Passeava com meu amigo em sua roça, havia chovido bastante e o terreno estava cheio de poças de lama. Ele me levou para um lugar alto, e me mostrou o céu e a terra juntos no mesmo espaço, beleza rara, as poças de lama que eram muitas e muito próximas refletiam o céu azul, com suas nuvens e pássaros. Olhos bons.
Outro dia fomos pescar num rio. Como de esperar, ao avistar o rio ele disse: _ Eita coisa linda, as maravia de Deus. Mas aí veio o momento de rara sabedoria: _ E olha que não enxergamos o rio, só enxergamos a superfície, o rio mesmo é o que esta abaixo da superfície, os peixes, as plantas...

É incrível como as pessoas que tem olhos bons tem o poder de fazer as pessoas que caminham com eles sorrir. Enxergar as coisas não só superficialmente, mas vendo a beleza, às vezes bem escondida. Enxergar a beleza que existe em nós mesmos e principalmente nos outros.
É incrível como as pessoas que tem olhos ruins tem o poder de nos deixar tristes e nos puxar pra baixo, não conseguem enxergar a beleza, vivem em um mundo feio, pesado, sem cor e sem sabor.

Leonardo Boff escreveu um livrinho só para falar dessas forças. Ele chamou as forças agregadoras, que tem o poder de nos lançar ao infinito, ao transcendente, de simbólico. E chamou de “diabólico” todas as forças desagregadoras, que nos prendem, nos amarram, destroem nossa capacidade de ir além.

As pessoas que tem bons olhos percebem e nos fazem perceber que somos seres destinados ao voo, águias. As pessoas que tem olhos ruins, só conseguem olhar para seus próprios umbigos, e para baixo, não olham para o alto e para os lados como a águia por que tem que ciscar o terreiro a procura de comida, galinhas.

As pessoas que tem olhos ruins despertam os monstros que escondemos tão bem, mas que existem em cada um de nós, e como só enxergam isso. Apontam para nós e nos mostra que somos monstros. Mas, na verdade, o que vê, nos outros, é apenas um reflexo de si mesmo, porque não consegue enxergar nada além de si.



Finalmente concluirei repetindo as palavras de um carpinteiro que viveu em um outro Ser-Tão, Jesus de Nazaré. _ Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Viva a São João! Amém...

Eitaaa... Bandeirolas brincando ao vento, bolo de milho, de puba, canjica, quadrilha, casamento na roça, quebra pote, famílias sentadas em volta da fogueira assando milho, contando causos, licô, forró... Crianças tudo brincando, vestidas de quadriculado e chapéu de palha... Eiitaaaa tempinho bom! Bom demaiss...

O mundo em festa, não havia para onde ir, todos os lugares o mesmo cenário... A chegada da chuva e a colheita alegravam a todos, trazia sorriso aos olhares, e fazia dos homens da terra feiticeiros, capazes de transformar os lugares sem graça e sem sabor, em espaços de alegria. Na verdade, só repetiam o que o Mestre tinha ensinado. Em seu primeiro milagre descrito no grande manual, Jesus chegou a uma festa e quando acabou o vinho tudo era sem graça e sem cor, água. Logo transformou a água em vinho, o sorriso voltou à face dos donos da festa e todos que estavam no lugar da festa se alegraram.

Um amigo me contava e relatava como sua família, seguidores fiéis de Jesus de Nazaré, crentes em Cristo, faziam o movimento contrário de Jesus, transformavam os espaços de festa e alegria em espaços sem cor e sem graça; transformavam o vinho em água.

Ele me dizia que queria cantar músicas que fazia o seu sangue vibrar, músicas de sua terra, criadas da alegria de um povo acostumado a sofrer... Mas só cantava músicas que não dizia ele. As músicas cantadas em sua igreja diziam outros de outros lugares. E cantavam não o que passava aqui e as esperanças daqui, mas o que queriam viver em outro mundo.

Meu amigo queria cantar ao seu Deus as súplicas do seu povo e não o desejo de outros.

“Quando olhei a terra ardendo. / Qual fogueira de São João.
Eu perguntei: Ah, meu Deus do céu, ai / Por quê tamanha judiação.
Que braseiro, que fornalha / Nem um pé de plantação.
Por falta d'água perdi meu gado / Morreu de sede, meu alazão.
Até mesmo a asa branca / Bateu asas do sertão
Então eu disse, adeus Rosinha / Guarda contigo meu coração.
Hoje longe muitas léguas / Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo / Pra mim volta pro meu sertão.”

A chegada da chuva é um momento extrema alegria para o nordestino, ele festeja e agradece a Deus, por ouvir suas petições.

Ele queria festejar e se alegrar com os seus, mas os seus se retiravam no momento da festa para entrar em cavernas que os protegiam do espaço festivo. Dentro das cavernas podiam comemorar a festa judia da páscoa, ou a festa européia do Natal, mas de maneira alguma se alegravam com as festas juninas.

Depois desta conversa convidei esse meu amigo para ir a uma Igreja evangélica, mas que aprendeu a ser igreja da terra no dia 26 deste mês. Neste dia vai acontecer o V Arraiá da Igreja Batista de Ouriçangas. Lá teremos fogueira, quadrilha, forró, arrasta pé, bolo de milho, canjica, as famílias, os causos, e principalmente a presença do Jesus que nos ajudará a transformar a água em vinho. Os espaços sem cor sem gosto e sem graça em espaço de alegria cheio de cor e sabor...

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Conversa de copa

O mundo está na África. Os técnicos do jogo, com táticas ofensivas começam a lançar as estratégicas antes mesmo de a partida começar. Tentam mostrar aos turistas que o país 75% negro pode recebê-los bem, contra-atacando as especulações que esta seria uma Copa sem turistas, uma Copa dos nativos. Cheguei a ver num programa o apresentador mostrando e afirmando que havia hotéis muito limpinhos para receber os turistas.

Os times entram em campo. A primeira jogada se dá na lateral do campo, com uma disputa de bola entre dois países esfoliados, México e África do Sul. O país mais pobre da América do Norte empata com o mais rico da África em número de desempregados e na desigualdade de renda. Cerca de um quarto da população vive com menos de US$ 1,25 por dia, nos dois países.O jogo se inicia, a alegria dos africanos envolve o espetáculo mais importante do futebol mundial. A torcida é a grande estrela do jogo.


A bola sobra no centro do campo, os ingleses que foram grandes atacantes no passado vieram para o jogo na defensiva, não mais se esforçam em matar africanos para ficar com seus diamantes mas sim com a segurança de seus jogadores e dependem de uma ampla e organizada operação defensiva. Os americanos muito violentos também se preocupam com a defesa, mas se defendem fazendo faltas violentas principalmente contra os mais fracos. A disputa acaba empatada.

Os frios alemãs surpreendem tocando bonito na bola, mas o que estamos esperando mesmo é que a bola chegue nos pés do Brasil. Já acostumados com os perna-de-paus que comandam nosso país, sempre temos esperança, mesmo com os perna-de-paus selecionados para o jogo. Aqui até que temos um craque, mas infelizmente está machucado. Uma pancada na cabeça fez o torneiro mecânico perder a identidade e os ideais, o tratamento da lesão foi através de doses de capitalismo meoliberal que só agravou a lesão. Lá temos um craque machucado e um técnico que deve ter também tomado uma pancada na cabeça antes de escalar essa seleção.
“Vamos juntos... Pra frente Brasil...”

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Morro do Lixo e o Governo do Luxo!

A Tragédia do Morro do Bumba, mas conhecido hoje como Morro do Lixo apresentou mais uma vez o drama do pobre brasileiro desprezado por toda uma população. No entanto acompanhado de perto pelas dramatizações eleitoreiras e pelos espetáculos dos urubus políticos que de longe sentem o cheiro do lixo, mas o que vêem são palanques políticos. 
Que o lugar do pobre é no Lixo nós já sabiamos, mas geralmente é o pobre mesmo, que sabendo do seu lugar, neste belo país democrático, vai morar no lixo enquanto os governos demagogos afirmam que estes devem sair dalí. 
O absurdo neste caso foi saber que o governo do Luxo fez seu palanque político em cima do Lixo, incentivando a moradia no Local.

Foi no Morro do Lixo que a Cedae, no governo Leonel Brizola, fez sua primeira grande obra de saneamento em Niterói, levando para o local, de helicóptero, uma grande caixa de água para atender aos moradores.Logo depois, Brizola (que é nome de rua de Lixo, no local)levou para o Bumba o programa Uma Luz na Escuridão. Mais tarde, a prefeitura construiu uma escola municipal e levou para a comunidade o programa Médico de Família. O Morro de Lixo ainda ganhou uma grande quadra poliesportiva, uma creche e outros equipamentos públicos. 

A surpresa do Governo do Luxo e de todos nós que legitimamos suas ações foi ver que os pobres que viviam em cima do Lixo agora estão debaixo. Saber que os pobres viviam no lixo era coisa natural, destino de um punhado de pessoas que não tiveram sorte na vida ou de pessoas preguiçosas que não lutaram por uma ascensão econômica. Já ver aquele espetáculo trágico na TV é coisa muito desagradável, tanto para os políticos que precisam de votos, quanto para nós que estavamos assistindo nossas novelas ou Campeonato Brasileiro. 

Agora resta lamentarmos que o Morro de Lixo cedeu, que os pobres que estavam sobre o Morro de Lixo agora estão mortos sob o Lixo. 

As eleições estão vindo aí. Os urubus certamente usarão o fato para ganhar os votos dos incomodados. 

Mas qual a solução pra isso: Já sabemos que não dá pra todos vivermos no Luxo, isso é economicamente impossível, geograficamente e o planeta não aguentaria.... Que tal o movimento contrário??? Ao invés de uma luta por ascensão social, que tal os ricos venderem tudo que tem para partilhar com os pobres, tornando-se pobres como esses, e nós da classe média seguirmos o exemplo... 
Hein??? 

Acho q há 2 mil anos atrás alguém já havia dito isso.... Alguém que ao contrário do que alguns pregam hoje encontraremos entre esses que vivem no Lixo, e nunca entre os que vivem no Luxo, pois ele mesmo também disse certa vez que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um desses alcançar a salvação.


 

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Num Meio-Dia de Fim de Primavera

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte  
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
 
     Tinha fugido do céu.
     Era nosso demais para fingir
     De segunda pessoa da Trindade.
     No céu era tudo falso, tudo em desacordo
     Com flores e árvores e pedras.
     No céu tinha que estar sempre sério
     E de vez em quando de se tornar outra vez homem
     E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
     Com uma coroa toda à roda de espinhos
     E os pés espetados por um prego com cabeça,
     E até com um trapo à roda da cintura
     Como os pretos nas ilustrações.
     Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
     Como as outras crianças.
     O seu pai era duas pessoas
     Um velho chamado José, que era carpinteiro,
     E que não era pai dele;
     E o outro pai era uma pomba estúpida,
     A única pomba feia do mundo
     Porque não era do mundo nem era pomba.
     E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
     
     Não era mulher: era uma mala
     Em que ele tinha vindo do céu.
     E queriam que ele, que só nascera da mãe,
     E nunca tivera pai para amar com respeito,
     Pregasse a bondade e a justiça!
 
     Um dia que Deus estava a dormir
     E o Espírito Santo andava a voar,
     Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
     Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
     Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
     Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
     E deixou-o pregado na cruz que há no céu
     E serve de modelo às outras.
     Depois fugiu para o sol
     E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
 
     Hoje vive na minha aldeia comigo.
     É uma criança bonita de riso e natural.  
     Limpa o nariz ao braço direito, 
     Chapinha nas poças de água,
     Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.  
     Atira pedras aos burros,
     Rouba a fruta dos pomares
     E foge a chorar e a gritar dos cães.
     E, porque sabe que elas não gostam
     E que toda a gente acha graça,
     Corre atrás das raparigas pelas estradas
     Que vão em ranchos pela estradas
     com as bilhas às cabeças
     E levanta-lhes as saias.
 
     A mim ensinou-me tudo.
     Ensinou-me a olhar para as cousas.
     Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
     Mostra-me como as pedras são engraçadas 
     Quando a gente as tem na mão
     E olha devagar para elas.
 
     Diz-me muito mal de Deus.
     Diz que ele é um velho estúpido e doente,
     Sempre a escarrar no chão
     E a dizer indecências.
     A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
     E o Espírito Santo coça-se com o bico
     E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
     Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
     Diz-me que Deus não percebe nada
     Das coisas que criou —
     "Se é que ele as criou, do que duvido" —
     "Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória, 
     Mas os seres não cantam nada.
     Se cantassem seriam cantores.
     Os seres existem e mais nada,
     E por isso se chamam seres."
     E depois, cansados de dizer mal de Deus,
     O Menino Jesus adormece nos meus braços
     e eu levo-o ao colo para casa.
     .............................................................................
     Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
     Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
     Ele é o humano que é natural,
     Ele é o divino que sorri e que brinca.
     E por isso é que eu sei com toda a certeza
     Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
 
     E a criança tão humana que é divina
     É esta minha quotidiana vida de poeta,
     E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
     E que o meu mínimo olhar
     Me enche de sensação,
     E o mais pequeno som, seja do que for,
     Parece falar comigo.
 
     A Criança Nova que habita onde vivo
     Dá-me uma mão a mim
     E a outra a tudo que existe
     E assim vamos os três pelo caminho que houver,
     Saltando e cantando e rindo
     E gozando o nosso segredo comum
     Que é o de saber por toda a parte
     Que não há mistério no mundo
     E que tudo vale a pena.
 
     A Criança Eterna acompanha-me sempre.
     A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
     O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
     São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
 
     Damo-nos tão bem um com o outro
     Na companhia de tudo
     Que nunca pensamos um no outro,
     Mas vivemos juntos e dois
     Com um acordo íntimo
     Como a mão direita e a esquerda.
 
     Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
     No degrau da porta de casa,
     Graves como convém a um deus e a um poeta,
     E como se cada pedra
     Fosse todo um universo
     E fosse por isso um grande perigo para ela
     Deixá-la cair no chão.
 
     Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
     E ele sorri, porque tudo é incrível.
     Ri dos reis e dos que não são reis,
     E tem pena de ouvir falar das guerras,
     E dos comércios, e dos navios
     Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
     Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
     Que uma flor tem ao florescer
     E que anda com a luz do sol
     A variar os montes e os vales,
     E a fazer doer nos olhos os muros caiados.
 
     Depois ele adormece e eu deito-o.
     Levo-o ao colo para dentro de casa
     E deito-o, despindo-o lentamente
     E como seguindo um ritual muito limpo
     E todo materno até ele estar nu.
 
     Ele dorme dentro da minha alma
     E às vezes acorda de noite
     E brinca com os meus sonhos.
     Vira uns de pernas para o ar,
     Põe uns em cima dos outros
     E bate as palmas sozinho
     Sorrindo para o meu sono.
     ......................................................................
     Quando eu morrer, filhinho,
     Seja eu a criança, o mais pequeno.
     Pega-me tu ao colo
     E leva-me para dentro da tua casa.
     Despe o meu ser cansado e humano
     E deita-me na tua cama.
     E conta-me histórias, caso eu acorde,
     Para eu tornar a adormecer.
     E dá-me sonhos teus para eu brincar
     Até que nasça qualquer dia
     Que tu sabes qual é.
     .....................................................................
     Esta é a história do meu Menino Jesus.
     Por que razão que se perceba
     Não há de ser ela mais verdadeira
     Que tudo quanto os filósofos pensam
     E tudo quanto as religiões ensinam?

Alberto Caeiro

segunda-feira, 29 de março de 2010

Você é ou parece?

Chamaram-me para fazer uma palestra para jovens evangélicos com o tema: Você é ou parece ser? Gostaria da ajuda de vocês.
Confesso que estou com problemas.
Como descobrir quem realmente somos? Será que existe isso? Um ser eu? Olho para mim e vejo muitos eus? Dissimulação? Teatro? Duas caras? Não! muitas... Muitos rostos...
Estava conversando com uma nova amiga e meu tio, de quem tanto falo nesse blog, e eles me falavam justamente isso, somos muitos. Me lembraram de Fernando Pessoa, exemplo clássico sobre o tema. Ele escrevia como quatro pessoas totalmente distintas: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo reis e ele mesmo.
Então cheguei a primeira conclusão: Eu sou muitos, Nós somos... 

O problema persiste. Mesmo sabendo que somos muitos precisamos conhecer estes rostos. Aí acredito que a questão não é saber quem somos, mas para onde estamos indo, ou até mesmo, pelo que lutamos.
Me diga pelo que você luta e eu direi quem é você. Somos as lutas que travamos. Me diga para onde você está indo. Quais são seus projetos? Seus sonhos? Quais as grandes Utopias que dão norte a sua vida? Nisso está meu segundo problema... Vou falar para jovens evangélicos, e a imensa maioria dos jovens evangélicos hoje se enquadram em dois perfis de espiritualidade: Os que são para a morte, e os individualistas, a grande maioria é uma mistura dessas duas coisas.

Ser para a morte é o tipo de espiritualidade que norteou o evangelicalismo brasileiro durante muitos anos. Essas frases retratam muito bem isso: _ Estamos aqui só de passagem, nossa pátria não é aqui, somos cidadãos dos céus. _ A razão de ser da igreja é salvar as almas do inferno e ganhá-las pra Jesus, não podemos perder tempo com outras coisas enquanto as almas estão morrendo sem Cristo.
Não adianta tentar convencer essa turma a se engajar em nenhum tipo de projeto de vida, porque o grande projeto deles está para depois da vida, para depois da morte, estão alienados da história.
O outro grupo é o grupo mais forte hoje, que é o que é influenciado pela teologia da prosperidade, os individualistas. As músicas que são cantadas nas igrejas evangélicas retratam bem isso: “Olha pra mim ...” “Eu quero de volta o que é meu...” “Eu prosperarei para a direita para a esquerda, para frente e para trás...” Eu... eu.... eu.... Os jovens chamam esse tipo de música extremamente egoístas e individualistas de músicas espirituais de adoração.
Aí está o problema... Como saber para onde estão indo, quem está vivendo para a morte, ou quem está apenas girando em torno de si mesmo???

Para descobrirmos quem somos, para penetrarmos fundo em nós mesmos, é necessário que haja liberdade. Isso é essencial. No momento em que percebemos que a liberdade é essencial nasce a revolta. Revolta contra as estruturas que nos aprisionam, contra este mundo feio, contra a ortodoxia, contra lideranças tanto políticas como religiosas. Jesus de Nazaré, Joana D'arc, Gandhi, Che Guevara, Luther King, são exemplos de pessoas que se revoltaram com os sistemas opressores de sua época e lutaram para subverte-los, porque eram pessoas de espírito livre. 

Você é ou parece ser?

Você é um produto do meio, da nossa cultura, das nossas tradições?
Somos produto do que comemos do que lemos do que assistimos na TV, (Globo, agente não se vê por aqui), dos costumes dos nossos país, da sociedade.
Conversando com um amigo Muht, ele disse assim: _Acho que a individualidade só pode existir quando estamos plenamente cônscios deste ilusório movimento do meio ambiente e da tradição que nos escraviza a mente. Enquanto aceito as regras da tradição, de uma cultura em particular; enquanto carrego o peso das experiencias ( que são resultado do meu condicionamento). Não sou um indivíduo, sou apenas um produto.

segunda-feira, 15 de março de 2010

RELAÇÕES entre NÓS

Em uma conversa com um amigo ele me perguntou se somos livres para tomar decisões, se a nossa vida é resultado de nossas escolher ou se nossa vida é resultante de determinações sociais e biológicas. Disse a ele que depois de muitas discussões científicas, religiosas, filosóficas e principalmente de mesas de bar, chegamos a brilhante conclusão que somos determinados e autônomos, ou melhor nem uma coisa nem outra, somos alguma coisa que fica no meio dessas duas.

Como sei que esse tipo de resposta não satisfaz, continuei conversando com ele e disse que a pergunta que ele fez, apesar de nascer de um desejo dele, é determinada pela compreensão de mundo da sociedade que vivemos. _ Na pergunta você separa o “Eu” do meio, como se você pudesse “ser” sem o meio, sem os outros, sem o que não é você.

Somos pessoas, ser-em-relação, não somos sujeitos, nem mesmo indivíduos, ambos são sombras criadas pela modernidade que esconde quem somos. Somos relações. Nessas relações somos influenciados e influenciamos.
Somos parte de inúmeras relações, com uma imensidão de pessoas vivas e mortas, com grupos diversos, ideias e ideais. O filme Avatar retratou isso de forma brilhante, todos estamos ligados, interligados por conexões, algumas transcendentes.

_Você já se relacionou amorosamente com alguém? Em algum momento você perdeu essa pessoa? Se isso aconteceu você sabe muito bem do que eu estou falando.

Quando amamos alguém deixamos de ter essa ilusão do “EU” e passamos a ser algo que só é quando estamos juntos, Nós. O amor é a mais poderosa conexão das relações que vivemos. Quando amamos alguém é muito diferente de quando estamos acostumados a conviver com alguém, não é costume, não é interesse, não é conveniência. O amor nos arremessa em direção ao outro, e quando o amor é correspondido há o encontro que potencializa o ser. Duas pessoas que se gostam e estão acostumadas a estar juntas fazem as coisas melhores do que estando sós, porque dois é melhor do que um, mas quando a relação é mediada pelo amor, juntas elas podem ser-fazer o que 10 ou 30 pessoas seriam-fariam. O amor potencializa o ser. Três dias com a pessoa amada valem muito mais do que uma vida inteira de solidão.

Amar a vida é caminhar na direção dela e ser agente transformador, transformar, levar a vida a todos os espaços onde ela não está. As vezes essa certeza de que somos produtos do meio nos paralisa, por isso temos que saber que somos mais que isso, somos produtos mas também produtores. Você não tem ideia o que um grupo de pessoas bem informadas é capaz de fazer.

Na vida você tem apenas duas escolhas: Fazer parte do pequeno grupo de pessoas que fazem as coisas acontecer, ou apenas ir tomar uma cerveja com Zeca Pagodinho e deixar a vida te levar.

quinta-feira, 4 de março de 2010

IMPERFEICAO

A paranóia humana que induz a sociedade a valorizar a perfeição ainda é uma característica forte do mundo ocidental. Apesar de não termos contato com essas ditas coisas perfeitas, que só existem no céu cristão ou no mundo das ideias de Platão, insistimos que elas são melhores.

No mundo da lógica do mercado, da produção em série, do utilitarismo, do uso e do consumo talvez essa coisa da perfeição possa ser entendida. Quem, por exemplo, quer comprar um eletrodoméstico com defeito? Ou ter um amigo defeituoso ( se for defeituoso, troca), ou até ser defeituoso. Precisamos ser perfeitos ou no mínimo parecer. Nas igrejas evangélicas e no mundo da política é assim, todos precisam parecer perfeitos.

A busca por perfeição varia um pouco. Depende muito do instrumento de alienação preferido da pessoa. Para quem tem como maior instrumento de alienação a mídia, a televisão, a globo (a gente não se vê por aqui), perfeição é ter dinheiro e estar na moda, para quem é alienado por igrejas cristãs perfeição é ser Santo. No mundo da política  partidária perfeição é enriquecer sem ninguém perceber os roubos.
Pensando sobre perfeição comecei a observar as flores, seres encantados, que trazem o sorriso simplesmente por existir e estar ao alcance dos nossos olhos, percebi que suas formas imperfeitas constroem sua beleza.

Semana passada estava com amigos apreciando a vista de uma cachoeira... Esta que está na foto ao lado... Que coisa incrível. Incrivelmente imperfeita. Uma QUEDA d’água que agita de tal forma o rio o qual antes do encontro com a imperfeição era sereno e calmo. Grandes pedras espalhadas por todos os lados, pareciam que foram arrancadas de seus lugares. Um amigo gozador indagou. Como seria essa Cachoeira se não fosse o pecado, que depois que entrou no mundo vêm destruindo-o? Seria perfeita, sem essas pedras por todos os lados, e ao invés dessa Queda d'água toda defeituosa haveria em seu lugar uma queda reta e plana. Talvez nem existisse Queda. 

Pecado, imperfeição, erro, falhas, não serão esses os ingredientes que quando somados com os acertos e virtudes, nos fazem ser quem nós realmente somos?
Conversando com um amigo que estava passando por um momento muito difícil ouvi dele que estava pensando muito em sua vida. Ele me disse algo que dificilmente você ouvirá numa igreja cristã. Disse que fazendo uma retrospectiva de sua vida, tentou esquecer, apagar os erros que cometeu para começar a tentar viver uma vida com menos erros. Depois de um tempo ele começou a desconfiar que muitas das coisas que ele julgava erros eram as melhores coisas que ele tinha vivido.
Não poderia terminar esse texto de outra forma se não trazendo a belíssima letra da música de Cassia Eller: Carne e Osso...

Alegria do pecado às vezes toma conta de mim
E é tão bom não ser divina
Me cobrir de humanidade me fascina
E me aproxima do céu.

E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano.

Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso, pra não ser carne e osso.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O NASCIMENTO DE UMA NOVA RELIGIÃO

Uma pergunta assustadora andou me incomodando ultimamente. Qual o papel da religião no Brasil? Não! A questão não é qual a importância, ou seu papel no passado ou mesmo seu potencial. A questão é: Qual o papel social da religião contemporânea hoje? Assusta né?


Muita gente vê a religião de forma positiva, percebe os valores que ela traz para a sociedade. Outros a vêem de forma muito negativa e afirmam que a religião é instrumento de alienação social e nada tem a oferecer.

No seu bairro tem alguma igreja? Se ela sumisse que diferença faria ao Bairro? Algumas igrejas têm feito esta pergunta e à luz das escrituras estão desempenhando um papel importante na sua comunidade. Outras continuam cheias pelo Brasil afora, desenvolvendo intensas atividades religiosas dentro de seus templos durante toda a semana. Enquanto isso aos redores da Santa Igreja; jovens sem empregos, trabalhadores sem terra, crianças violentadas, políticos corruptos. Lá fora a necessidade gritante de justiça, compaixão e solidariedade. Lá dentro cristãos sem amor e sem obras.


Igrejas que não conseguem enxergar NADA além do seu próprio umbigo. Em sua caminhada cega para o “céu” e para a prosperidade, não conseguem ao menos ser cristãos no mundo.


Pensando nisso conversando com uns amigos virtuais (muito tempo atrás), surgiu uma idéia de uma religião que não nos dará muito trabalho para pensar qual o seu papel, pois em sua proposta ela traz isso claramente. Parece um pouco com essas últimas...



O SURGIMENTO DE UMA NOVA RELIGIÃO


Estamos criando uma nova religião, o Nadinismo. Ela comporta uma única divindade, o Nadão, mais nada!
Este ser divino, maravilhoso, unipresente, unisciente, mora no Zero, bem no miolo.
Vocês já devem ter visto Ele nos zeros que têm um pontinho dentro, pois é Ele!!

O Nadão está sempre sentado à mão direita das outras divindades, todas: God, Alá, Tupã, Lula... o pessoal olha e diz: não tem nada lá!! É Ele, gente!!
Para fazer parte do Nadinismo não precisa fazer nada, basta dizer, de si para si: Tô nessa, e depositar R$1 na minha conta.
O depósito dá direito a um certificado (folha em branco) prá pendurar na parede lisa, e um terço com zero contas, para vós irdes rolando nos dedos, quando não estiverdes fazendo nada. Mas tem de ajoelhar.

Até aqui, tudo bem?
Então, por enquanto é só. Garanto que o Nadão não vai fazer nenhum mal a vós, inferno, pecado, nada disso!!
Mas também não vai fazer nenhum bem!
Em compensação, pra mim Ele vai ser bom. Afinal, eu que descobri Ele, tá, gente!! Eu podia estar roubando e assaltando, mas estou aqui honestamente lançando esta maravilha!

Claro que terei uma renda mais substancial do que a q tenho hoje, mas, prevenido, já comprei umas cuecas novas e umas Niilis (nossa bíblia) ocas, para portar e comportar vossos óbulos quando eu estiver em trânsito.

Ide, e não falai nada com ninguém!
Suplico-vos, oreis em silêncio, Nadão vos abençoa! amãe!!!



A Solidão é o meu pior castigo

Tillich sem Barth
Beauvoir sem Sartre
Sou eu assim sem você
Lugar sem entrada
Beijo sem pegada
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim
Se o meu desejo não tem fim
Eu quero a todo instante
Seu olhar apaixonante
Vc é o q há melhor em mim

Vida sem tesão
Amor sem paixão
Sou eu assim sem você
Drummond sem a pedrinha
El Niño sem La Niña
Sou eu assim sem você

Tô louco pra te ver Sonhar
Tô louco pra te descobrir
Deitar no teu abraço
Viver nesse espaço
Que sempre faz vc sorrir

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Não sei quando
E se vou te ver
Por que a vida tá de mal comigo
Por quê? Por quê?

Nietzsche sem o Cristo
Religião sem mito
Sou eu assim sem você
Rapunzel sem tranças
A vida sem danças
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim
Se o meu desejo não tem fim
Eu quero a todo instante
Seu olhar apaixonante
Vc é o q há melhor em mim


Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo (2X)
Não sei quando e se vou te ver
Por que a vida tá de mal comigo
Por quê?