domingo, 24 de abril de 2011

Mapas Rasurados

Meus contemporâneos que usufruem de um mínimo de lucidez - alguns amigos meus têm esse defeito - ao tentar compreender a realidade atual sentem-se cegos tateando caminhos em terras baldias, levando em mãos alguns Mapas Rasurados. 

Cegos, caminhamos felizes, por que temos os mapas. Nas manhãs de domingo sento-me com alguns desses amigos para ler um desses mapas. Cantamos músicas, nos abraçamos, e seguimos perdidos por nossos caminhos achados. 

A geração anterior acreditava que com os óculos certos e com Mapas adequados conseguiríamos encontrar os caminhos que conduziria a humanidade para uma realidade melhor. Tinham bons olhos, acreditavam em utopias, acreditavam no ser humano. Não enxergavam que: “O Homem, que, nesta terra miserável, vive, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera.” 

Hoje, engolidos pela Grande Fera chamada Sistema Capitalista Neoliberal, alimentam a Besta com a qual antes lutavam... Outros não só alimentam com seus próprios corpos, seus corpos já se tornaram feras. O PT, Partido dos Trabalhadores é um claro exemplo. 
As pessoas não desejam Mapas, logo, a Sociedade do Consumo não os produz. No máximo produzem tapa-olhos para a cegueira coletiva não ficar tão evidente. Nessa sociedade sem Mapas, as pessoas caminham como rebanho, cada uma com o focinho no rabo da outra. Pessoas que são massa humana, negadas como sujeitos históricos, sem consciência libertária e sem um projeto de futuro, massa sempre manipulada pelas ideologias das elites. 

Com um mapa rasurado em uma mão, e segurando nas mãos dos companheiros de caminhada com a outra, sem enxergar bem os caminhos tentamos prosseguir ouvindo sempre às palavras daqueles que mesmo sem nenhuma luz conseguem enxergar caminhos: poetas e profetas. “O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.” 

 (*) Imagem - Tela de Salvador Dali - [La Femme Nue dans le Desert]

9 comentários:

Aníssima Duarte* disse...

"Não nos afastemos muito, vamos de mãos-dadas"

Que sabedoria! Mas me sinto triste pois cada dia está mais diicil manter as mãos unidas...As mudanças da vida, muitas delas fruto dessa rotina capitalista, maçante ladra de nosso tempo nos afasta de muitos de quem amamos...Eu não tenho mapa, me empresta ou divide o seu comigo?

Preciso de vc, amigo, sempre e até mesmo qd não precisar!

Mile disse...

"As pessoas não desejam Mapas, logo, a Sociedade do Consumo não os produz".

Como diz uma pessoa que amo e admiro: Decisão tomada, consequência admitida. Nossa realidade é fruto das nossas escolhas. Não acho que somos as vítimas do sistema, mas os responsáveis por ele. Escolhemos viver e nos acostumar com esta sociedade, o que é lamentável,pois torna triste e feio o que poderia ser tão admirável e cheio de cor. Contudo, essa sociedade é o preço da escolha que os homens fizeram quando decidiram soltar as mãos.

Léo disse...

“O Homem, que, nesta terra miserável, vive, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera.”

Na ansia de tornar-se fera também, distorcem os mapas já rasurados e usam como estratégia de caça.

Faz-se questão de sobrevivência as mãos dadas, não largue a minha meu pastor...

Tava com saudade das suas preciosidades meu pr.

Forte abraço!!!

Anísia Neta disse...

É caro um amigo... penso que Drummond é mesmo o profeta do mundo de hoje... Nada de grandes revoluções, de mudanças radicais, de desbancar o Sistema Capitalista... talvez a única solução seja mesmo ir de mãos dadas no pequeno grupo de relacionamentos, ir até onde o braço alcança, onde o ombro é perto pro amigo poder se consolar, onde a mão estendida pode afagar, cuidar, proteger, onde os olhos podem expressar o nosso íntimo e com isso criar uma rede de amigos e amigas que burlam o sistema selvagem do capital, que vão na contra-mão do individualismo vigente e que fazem a diferença através de atitudes de doação, serviço, trabalho e responsabilidade.
Fico triste porque não vamos mudar o mundo!!! rsss
Mas comprar as viseiras também não vamos !!!
Pessimismo na medida de quem é lúcido no meio de tantas estórias fantasiosas de bruxas más, mocinhos e casamentos de príncipes com plebéias!!!! Affff....

Sempre fã do teu espaço!!!!

Anísia Neta disse...

Mãos Dadas (Drummond)

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Djavan Lopes disse...

Meu mano! Suas palavras diagnosticaram minha miopia. Forte abraço!

Maiane Fonseca disse...

Gostei muito do texto Marquinhos...

E que seja eu a estender minha mão primeiro e não solte no primeiro obstáculo...

Marcos Fellipe disse...

Mile... Que alegria te ver por aqui... Saudad de vc... Vc tem razão, não somos vítimas nós ajudamos cotidianamente a construir o mundo q esta aí.
Dja... Continue visitando o blog... certamente sua contribuições melhorarão o nível do blog e aí aumentara o numero de visitas... rssss...

Valeu Neta... Vc traduziu todo o meu sentimento de qd estava escrevendo o texto... Eu eh q sou seu fã...
Leu Aníssima e Maiane... Grande alegria ve-los aquiii... Maiiiiii... ehhhhhhh... Xeroooo!!

Messias Brito disse...

É Marquinhos, tb tô nessa!!! Não tenho mais que mapas rasurados com acidentes geográficos mutantes e paisagens embaçadas... Tb me sinto meio cego, mas me esforço pra ver! Nesse caos consigo sentir as mãos dos amigos caminhando comigo e me percebo mais forte, mais corajoso e esperançoso...
Mto bom ter vc por perto! Abraços!