sexta-feira, 23 de julho de 2010

Menina Faceira

Ela me chamou para nomear estrelas.



Coisa das mais alegres e das mais perigosas desse mundo é conhecer meninas faceiras, mais perigoso é dar-lhes as mãos para brincar com elas .



Menina de sorriso largo, olhos profundos, brilho do mistério do infinito no olhar. Asas de borboleta e sobre as asas o dia inteiro. Convidou-me para com o vento correr atrás das estrelas e dá nome a elas. E lá fomos...



Olhos selvagens envoltos numa serenidade que enfeitiça o espírito daqueles que ousam lhes dar as mãos ou olhar em seus olhos. Quantos sorrisos diferentes você tem? “O céu é teu sorriso, no branco do teu rosto a irradiar ternura...”



A menina faceira brincava de ciranda com a vida.



A menina se foi... Agora está brincando de picúla, correndo atrás do tempo...



Ela me chamou! Chamou para nomear estrelas. Ah menina! Faceira...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Quando o outono chegar...



Quando você tem quinze anos trabalhando numa empresa que saiu do zero, ela agora é uma grande empresa, praticamente por causa dos seus esforços e você é demitido sem nenhum motivo aparente.



Quando seu filho roubou sua televisão, para comprar a penúltima pedra de crack.



Quando sua vida se torna um inferno, por causa de uma calunia daquele que você acreditava ser seu amigo.



Quando você descobre que passou a vida toda sendo apenas carvão, queimado pelo sistema de produção e quando olha pra trás não vê vida e descobre que nunca viveu.



Quando a mulher que você ama esta acordando ao lado do homem errado.



Quando uma mãe joga o primeiro punhado de terra no caixão do próprio filho.



Quando não há mais esperança, quando só há tristeza e solidão.



Quando o outono chegar... Lembre-se! Você ainda precisa de forças para enfrentar o rijo inverno...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Bons olhos... Olhos ruins...

Estava conversando com um velho amigo que conheci numa roça no interior de Anguera, cidadezinha do sertão baiano. Sempre que converso com ele tenho a sensação que naquela hora de conversa aprendi mais que a semana inteira na Universidade.

Ele me falava há dois tipos de pessoas no mundo, as que tem bons olhos e as de olhos ruins. _Tem gente que sabe vê, tem gente que óia óia e num vê é nada, só vê a feiura das coisa.

Num outro sertão, no Grande Sertão Veredas, Riobaldo aprende a ver com Diadorim, seu amigo e amada – as pessoas que amamos tem esse poder, nos fazem enxergar ou nos cegam totalmente. Em uma bela cena descrita por Guimarães Rosa, Riobaldo atravessava um rio com Diadorim quando foi motivado pelo amigo a olhar para a beleza que estava a sua volta, foi um momento mágico, os olhos de Riobaldo se abriram para as coisas essenciais, mas tarde ele disse: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Há pessoas que não conseguem enxergar a beleza que está bem na frente de seus olhos, olhos ruins... Passeava com meu amigo em sua roça, havia chovido bastante e o terreno estava cheio de poças de lama. Ele me levou para um lugar alto, e me mostrou o céu e a terra juntos no mesmo espaço, beleza rara, as poças de lama que eram muitas e muito próximas refletiam o céu azul, com suas nuvens e pássaros. Olhos bons.
Outro dia fomos pescar num rio. Como de esperar, ao avistar o rio ele disse: _ Eita coisa linda, as maravia de Deus. Mas aí veio o momento de rara sabedoria: _ E olha que não enxergamos o rio, só enxergamos a superfície, o rio mesmo é o que esta abaixo da superfície, os peixes, as plantas...

É incrível como as pessoas que tem olhos bons tem o poder de fazer as pessoas que caminham com eles sorrir. Enxergar as coisas não só superficialmente, mas vendo a beleza, às vezes bem escondida. Enxergar a beleza que existe em nós mesmos e principalmente nos outros.
É incrível como as pessoas que tem olhos ruins tem o poder de nos deixar tristes e nos puxar pra baixo, não conseguem enxergar a beleza, vivem em um mundo feio, pesado, sem cor e sem sabor.

Leonardo Boff escreveu um livrinho só para falar dessas forças. Ele chamou as forças agregadoras, que tem o poder de nos lançar ao infinito, ao transcendente, de simbólico. E chamou de “diabólico” todas as forças desagregadoras, que nos prendem, nos amarram, destroem nossa capacidade de ir além.

As pessoas que tem bons olhos percebem e nos fazem perceber que somos seres destinados ao voo, águias. As pessoas que tem olhos ruins, só conseguem olhar para seus próprios umbigos, e para baixo, não olham para o alto e para os lados como a águia por que tem que ciscar o terreiro a procura de comida, galinhas.

As pessoas que tem olhos ruins despertam os monstros que escondemos tão bem, mas que existem em cada um de nós, e como só enxergam isso. Apontam para nós e nos mostra que somos monstros. Mas, na verdade, o que vê, nos outros, é apenas um reflexo de si mesmo, porque não consegue enxergar nada além de si.



Finalmente concluirei repetindo as palavras de um carpinteiro que viveu em um outro Ser-Tão, Jesus de Nazaré. _ Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas.